terça-feira, 22 de julho de 2014

I residenti

Hoje fiz a minha apresentação. Comecei com um clássico: filminho de Autazes. No final foi bem legal, todo mundo discutindo os correspondentes, querendo saber mais detalhes e tal. Já estava acostumado com a maioria das perguntas, depois de tantas apresentações pelo mundo afora.

Queria falar um pouco de quem encontrei aqui. Com tanta social obrigatória de frente pro lago, em três semanas deu pra enturmar.

Aqui no Bellagio Center tem uma lógica que eu não esperava. Antes de vir para cá, imaginava que iria ficar com o mesmo grupo pelas quatro semanas, mas não. Mesmo entre os que ficam quatro semanas, que são poucos, as datas de entrada e saída em geral não coincidem. Isso acaba sendo bom porque temos contato com mais gente e não dá tempo de ficar com o saco cheio de ninguém. Considerando que tem os de 3 semanas, os de 2 semanas e os de uma semana, dá uma bela rotatividade. Sem contar os que vêm por poucos dias, apenas para alguma conferência "lá em baixo", no Sfondrata, e que têm o privilégio de vir jantar conosco, os residentes, por uma única vez. Não tem quem não fique com inveja dos residentes.
Primeiro, os brasileiros. Conhecemos o Luiz, da Esalq, uma figura. Extremamente boa praça e daqueles que dá pra ficar amigo íntimo em no máximo em 5 minutos. Tem um trabalho bem interessante sobre transportar o modelo agrícola brasileiro para a África. Foi convidado para aplicar, e não como eu, que apliquei para ser convidado. O escritório dele era na torre de mais de 1000 anos! A esposa, Sandra, ficou amiga da Lilian. A filha, que veio visitar, é nossa vizinha em Higienópolis. Rômulo, quem está fazendo trabalho ao meu tema, estudando re os programas de proteção social brasileiros, como bolsa família. É boa praça. A esposa, médica da UFMG, é bem simpática. Chegaram depois de nós e vão embora antes.

O Bob, assessor de planejamento estratégico do Ban Ki Moon, além de muito simpático foi o mais "poderoso" que passou por aqui neste meu período. Ficou só uma semana, porque o chefe não deu folga. De vez em quando tinha que sair da mesa para atender "o chefe". Tem um projeto muito interessante, "Building Global Public Goods", mas de difícil implementação, talvez impossível no meu horizonte de vida. O mais legal foi a conversa que tivemos, eu falando sobre correspondentes, porque sabia que ele não iria ficar até o dia da minha apresentação, e ele anotando tudo que eu falava. Tô esperando ser convidado para apresentar o filme de Autazes na assembléia geral da ONU.

Thomas, o Doc, médico que foi responsável pela implantação de um programa de saúde pública em NY, travou uma luta complicada com a indústria de fast-food para reduzir o tamanho de refrigerante e hambúrguer na cidade. Sempre com uma fala mansa, mas firme. Foi também secretário de saúde pública em New Orleans e contou várias histórias do Katrina. Não dá pra não admirar um cara desses.

Mahnaz, uma senhora iraniana militante de movimentos feministas, e que teve que sair do Irã em 1979, logo após a revolução. Veio escrever uma autobiografia e tem uma história bem dura pra contar.

Sadik, artista plástico iraquiano radicado na Holanda (Luiz brincava do risco que tínhamos de um conflito Irã-Iraque na mesa), no começo era meio fechado, mas depois virou o palhaço da turma, sempre tirando uma. Tem um trabalho muito bonito e triste ao mesmo tempo

Naresh Fernandes. Dá pra acreditar num indiano que come carne e é católico? E note o sobrenome. Falante e simpático. Ninguém consegue ficar fora da conversa com ele por perto. Jornalista do National Geografic na Índia, conhece bem música brasileira.

Eddy, economista especialista em assuntos do Vietnã, casado com uma de lá, e membro de um comitê de especialistas sobre o país, nomeado pelo Obama. Menino prodígio, é o caçula da turma (40 anos) e, como tal, às vezes merecia um croque na cabeça. Envolvido em pesquisas randomizadas e um crente nas explicações derivadas de números.

Mark, nosso vizinho de porta, veio com o companheiro, que desde o começo foi mais simpático. Achamos que era esnobismo, mas depois deu pra perceber que era timidez. Tem um trabalho interessante sobre as mazelas que as ONGs estão aprontando no Haiti depois do terremoto.

Roy, ficou só uma semana no nosso período. Trabalha na Gates Foundation e estuda ONGs que recebem grana de doadores como o patrão dele. Toca um pouco de violão e piano e a esposa é dançarina de ballet clássico, uma negra alta e que chamava a atenção toda vez que aparecia. Por causa dele me animei a tocar meus clássicos numa dessas nossas sociais.

David, professor da New School de NY. Curioso, sempre perguntando, e com um projeto sobre design de hotéis, com foco no trabalho invisível das arrumadeiras. Conversou muito com o Henrique, no jantar que ele participou.

Rae, poetiza ganhadora do Pulitzer. Nas três primeiras semanas me dava muito melhor com o marido dela. Vão embora amanhã e, na nostalgia da saída, tivemos um ótimo papo hoje, até um pouco antes de escurecer.

Sandy, um velhinho simpático que ficou poucos dias por um motivo insólito. Caiu quando foi fechar a janela por causa da chuva e quebrou a perna. Teve que voltar de avião fretado para os EUA.

E tinha os que não deu pra conhecer bem. Bernadette, artista sul-africana que só aparecia de vez em quando. Gauri, artista Indiana, que também não cruzamos muito. Kevin, ex-primeiro ministro da Austrália, e Pat, jornalista de NY, que foram embora no dia em que chegamos. Os que ficaram mais tempo com eles contaram que eram figuraças.

E o staff daqui também merece referências. Pilar, a chefe. Ontem fez um tour conosco pela Villa (a meu pedido, diga-se) para explicar cada uma das obras da casa. As mais recentes são do século XVIII. Quadros, tapeçarias, mobiliário, tudo ficou muito mais interessante conhecendo a história. A Villa é mesmo um museu.

E os garçons, cada um mais figura que o outro. Vittorio ficou amigo desde criancinha porque a Luísa ficou hospedada no albergo que ele mantém na casa dele. Francesco, fanático por futebol, torcedor da Internazionale. Paolo, Albino, Ermano, todos muito atenciosos. Vai ser difícil voltar pra casa e ter que servir o próprio vinho. Sem falar em ter que arrumar a própria cama.



Nesta semana está saindo um monte de gente e não vai chegar mais ninguém, por causa das férias de agosto. Nos nossos últimos dias vamos ficar praticamente donos do lugar. Mas ainda temos dez dias e vamos aproveitar.



Até o último segundo.












Um comentário:

  1. Eu acho que você devia falar para eles que você conhece uma portuguesa residente no Brasil que é importantissimo eles convidarem para aplicar. O motivo para isso, não sei ainda, mas eu vou me esforçar para descobrir. Será que "ela gostaria tanto" é um bom motivo?

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