
O jardim da Villa merece alguns comentários. Dizem aqui, que depois que a Principessa transferiu a propriedade para a Fundação Rockefeller, uma semana antes de morrer, deixou um fundo de alguns milhões (vai saber em que moeda) para que o giardino fosse mantido. Era uma entre as exigências feitas para passar a propriedade desse lugar que ela tanto amava.

Dos 35 funcionários que cuidam de toda a operação do Bellagio Center, não estão contadas as duas empresas responsáveis pela manutenção do jardim, pagos com o fundo deixado pela Principessa, e não com o dinheiro da Fundação Rockefeller. Ou seja, os americanos tomam conta de tudo, mas não põe a mão no jardim.


A propriedade é enorme e pode-se perceber que cada cantinho, tudo muito bem cuidado por especialistas. Tem uma infinidade de trilhas pelo morro, todas com pedrinhas marcando o caminho, subindo o descendo o tal do promontório. Nenhuma graminha ou florzinha fora do lugar. E ainda tem uns offices pelo meio.


O mato, se é que se pode chamar assim, é de uma margaridinhas amarelas espalhadas pela extensa área gramada. Ontem os jardineiros passaram máquina e tiraram tudo. Foi uma pena. Desde que chegamos as margaridinhas davam uma graça especial, amarelando todo o gramado. Mas não tem perdão, elas são mato, e como mato são tratadas. Não tem essa de flor nascer por conta própria e se espalhar por aí.

No verão a temperatura pode passar fácil dos 30˚, mas também
pode cair abaixo dos 20˚ de uma hora para outra. Tempestades se formam rapidamente por causa das montanhas e também vão embora rápido. Aparentemente o inverno não é tão rigoroso, se considerarmos que estamos quase nos Alpes, e a temperatura não costuma cair abaixo de 0˚, por causa da massa de água do lago.


Esse clima parece contribuir para que as plantas tenham um bom ambiente, e elas aproveitam para mostrar toda a sua exuberância.
Tem algumas estufas para preparar as plantas e, em alguns lugares bem definidos, cultivam umas pequenas hortas, com verdurinhas que consumimos todos os dias. Não vi cabra nenhuma (imagina soltas no jardim!) e nem nenhuma oliveira, mas temos iogurte e azeite made in Fundação Rockfeller.


Tem uns laguinhos com fontes, todos bonitinhos. Um dia achamos um totalmente seco, com cara de abandonado. Aha! Não podia ser tudo assim tão cuidadinho, sem nenhuma coisa fora do lugar. Que nada. Este laguinho fica vazio de propósito, para represar água da chuva forte que pode cair de repente. Para evitar que a enxurrada estrague o jardim, claro.

Como todo jardim, principalmente os grandes, temos diversos habitantes morando nele. Muitos pássaros, mas nada parecido com a diversidade da Mata Atlântica. Tantas abelhas de vários tipos e tamanhos, que tomei uma ferroada que deixou meu braço vermelho e irritado por vários dias.

Quando ainda não sabíamos que tinha uma tela na janela para proteger nossa residenza dos insetos, entrou uma abelha no quarto. Foi uma aventura, pois a Lilian disse que não dormiria enquanto não visse o cadáver da bichinha.

Para aumentar a dramaticidade, o zumbido da abelhinha virou "helicóptero" para Indiana Lilian. Depois de algumas toalhadas, finalmente conseguimos o cadáver. Levamos para o nosso agrônomo de Piracicaba avaliar o potencial destrutivo daquela besta selvagem. Ele deu muita risada e reduziu muito a intensidade do risco que tínhamos corrido.

Simpáticas mesmo são as taruíras. Não sei o nome científico, mas essas lagartixas não são muito dadas a contatos com humanos. Ficam só no jardim e desaparecem com qualquer chuvinha. Correm desesperadas quando vamos passando pelos caminhos e escadas do jardim e foi muito difícil tirar foto de uma delas para registrar neste blog. Diferentemente das taruíras de Fernando de Noronha, não querem saber de visitas a qualquer espaço interior. E são muitas, mas muitas mesmo. Acho que depois das abelhas, devem ser o animal visível mais comum do jardim.


As aranhas, invisíveis, são excelentes na arte de construir teias cruzando de um lado a outro as trilhas. Todo dia passamos destruindo algumas, que no dia seguinte estão lá de novo,
persistentes.


A diversidade arborífica também não é muito grande, afinal trata-se de um jardim. Não é floresta, nem mata e nem bosque. Tem muitos ciprestes, todos muito bem aparados, e umas outras árvores bem grandes mais perto da Villa, pelo visto bem antigas. Algumas pequenas árvores frutíferas, que produzem algo comestível só pelos pássaros, completam a flora de maior porte.
E tem as estátuas espalhadas por diversos cantos do jardim. Todas com jeito de serem muito antigas, e que completam o cenário. Junto com uns pequenos pilares ao longo dos caminhos, que não devem ter menos do que 300 anos. Por baixo.


Em alguns recantos, têm umas grutas e pequenas cavernas. Algumas escavadas na pedra e outras foram feitas, pedra por pedra, encaixadas de uma maneira que não dá pra entender como não caem na nossa cabeça. Algumas dessas grutas devem ter sido caminhos usados quando não existiam as escadas que existem hoje para se passar de um nível para outro do jardim. Essa estrutura de níveis é suportada por arcos feito em pedras. Uns mais antigos e outros mais recentes, do século XIX.

Como estamos num morro, qualquer caminhada, ainda que divertida, é sempre um sobe ou desce. Este passeio na vertical tem a vantagem de nos ajuda a queimar um pouco das muitas calorias que vamos adquirindo com tanta comida e vinho (da melhor qualidade, diga-se) que nos servem aqui.


Uma das grutas é um túnel para se chegar até as ruínas do topo do morro. Deve ter quase uns 100 metros e, em curva, quando se entra nela, fica tudo um breu. Mas para ver a jardinada e bem preservada ruína que se encontra do outro lado, vale muito a pena. Sem falar da vista, pois é o ponto mais alto da propriedade.
Tem muitas pequenas ruínas espalhadas por vários lugares, geralmente próximas das beiras do penhasco, que devem ser resquícios do tempo que este lugar era uma fortificação para proteger a lombardia dos invasores bárbaros que vinham do norte.

Uma pequena capela quase escondida, provavelmente um capricho da Principessa, fica num dos extremos da propriedade. Construída como uma cópia miniatura de alguma igreja importante, sempre têm flores novinhas no seu altar.
Deve estar incluído no contrato deixado por ela.
Mi sembra che voi siete appasionato dall' Italia...
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