terça-feira, 29 de julho de 2014

Arriverdeci Bellagio

Amanhã é nosso último dia em Bellagio. Passamos um mês inesquecível aqui. E bota inesquecível nisso.
Além de termos desfrutado de uma oportunidade maiúscula e única, muito dificilmente teremos experiência semelhante, aqui ou em qualquer outro lugar.

Pelas pessoas, pelo lugar, pela possibilidade de concentração no trabalho... E, claro, por curtir um pedacinho da Itália, esta terra linda, cheia de História, con la sua gente accogliente, cordiale, loquace e esagerata, um tanto como nós, brasileiros.


Sentimos falta de casa, dos amigos, da família, mas também soubemos aproveitar muito bem cada um dos muitos instantes que tivemos, nos jardins, à beira do lago, nos vilarejos dos arredores, nas escapadas de final de semana (St. Moritz, Venezia, Milano...). E também das conversas animadas com pessoas interessantes nas sociais diárias, além dos debates sobre assuntos os mais variados.

Não dá pra saber ainda quais serão os resultados desta nossa passagem por aqui. Para os nossos olhares sobre todas as coisas e lugares, para o nosso conhecimento, e para o nosso sentimento sobre o mundo em que vivemos, sabemos que nada será o mesmo.

Fico muito feliz por saber que estou aqui por um reconhecimento do meu trabalho passado, mas muito animado com as possibilidades para o que ainda poderei produzir no futuro, graças a estas quatro semanas aqui.

Talvez alguns contatos daqui deixem frutos (já tenho um convite para visitar o Senegal), mas talvez nunca mais vejamos as pessoas que encontramos aqui. De qualquer forma, meu C.V. certamente ficou mais pesado. Obrigado, "seu" Rockefeller.

Em algum momento no futuro, talvez vamos ficar sabendo de alguém com quem jantamos e jogamos conversa fora tenha tido um reconhecimento relevante. Três dos nossos fellow residentes certamente estão na possibilidade de uma visibilidade maior: o assessor da UN, a militante feminista iraniana e o doutor de NY. Outros podem se destacar pela sua qualidade artística, como o divertido iraquiano de tão tristonha arte, ou a já reconhecida e premiada poetisa.

Da turma de brasileiros, sou o com menos rodagem internacional, mas encaro isso como um prêmio, pois pude ter reconhecido meu trabalho, de alguma forma. Só por isso valeu ficar batendo na tecla dos correspondentes por tantos anos. Os amigos que me desculpem por tê-los aborrecido com este tema monocórdio, mas dominar (pelo menos) um assunto é fundamental.

Nesta última semana a Villa foi ficando cada vez mais vazia e, com isso, a melancolia foi aumentando. A cada dia um residente saía e sentíamos que a nossa vez estava chegando. E também também o fim da mamata de vinho de primeira, quarto arrumado três vezes por dia, refeições requintadas e garçons à nossa volta o tempo todo. Sem falar da distância da rotina no trabalho que nos atormenta e frequentemente nos torna improdutivos.

Só para não ficarmos tão tristes, ontem e hoje está chovendo muito, enevoando a beleza do lago, que parece coberto por um véu. Talvez amanhã e na nossa saída o tempo melhore só para o lago nos dizer "arrivederci". Isso vou poder contar depois.

Agora somos apenas três casais aqui e a equipe da Villa se prepara para as férias. Na quinta saímos todos, e no almoço já não terá mais nenhum residente. Nós pelo menos vamos tomar café antes de sair para pegar barco, trem e depois mais trem até chegar em Firenze, para desfrutar de nosso último final de semana na Itália.

Para terminar este blog que conta nossa história de cinema aqui em Bellagio, quero rememorar o clássico final de Casablanca, com a frase adaptada para o nosso caso e, evidentemente, na sua versão italiana: "avremo sempre Bellagio"



quinta-feira, 24 de julho de 2014

Il giardino

O jardim da Villa merece alguns comentários. Dizem aqui, que depois que a Principessa transferiu a propriedade para a Fundação Rockefeller, uma semana antes de morrer, deixou um fundo de alguns milhões (vai saber em que moeda) para que o giardino fosse mantido. Era uma entre as exigências feitas para passar a propriedade desse lugar que ela tanto amava.

Dos 35 funcionários que cuidam de toda a operação do Bellagio Center, não estão contadas as duas empresas responsáveis pela manutenção do jardim, pagos com o fundo deixado pela Principessa, e não com o dinheiro da Fundação Rockefeller.  Ou seja, os americanos tomam conta de tudo, mas não põe a mão no jardim.

A propriedade é enorme e pode-se perceber que cada cantinho, tudo muito bem cuidado por especialistas. Tem uma infinidade de trilhas pelo morro, todas com pedrinhas marcando o caminho, subindo o descendo o tal do promontório. Nenhuma graminha ou florzinha fora do lugar. E ainda tem uns offices pelo meio.

O mato, se é que se pode chamar assim, é de uma margaridinhas amarelas espalhadas pela extensa área gramada. Ontem os jardineiros passaram máquina e tiraram tudo. Foi uma pena. Desde que chegamos as margaridinhas davam uma graça especial, amarelando todo o gramado. Mas não tem perdão, elas são mato, e como mato são tratadas. Não tem essa de flor nascer por conta própria e se espalhar por aí.

No verão a temperatura pode passar fácil dos 30˚, mas também
pode cair abaixo dos 20˚ de uma hora para outra. Tempestades se formam rapidamente por causa das montanhas e também vão embora rápido. Aparentemente o inverno não é tão rigoroso, se considerarmos que estamos quase nos Alpes, e a temperatura não costuma cair abaixo de 0˚, por causa da massa de água do lago.

Esse clima parece contribuir para que as plantas tenham um bom ambiente, e elas aproveitam para mostrar toda a sua exuberância. 
Tem algumas estufas para preparar as plantas e, em alguns lugares bem definidos, cultivam umas pequenas hortas, com verdurinhas que consumimos todos os dias. Não vi cabra nenhuma (imagina soltas no jardim!) e nem nenhuma oliveira, mas temos iogurte e azeite made in Fundação Rockfeller.

Tem uns laguinhos com fontes, todos bonitinhos. Um dia achamos um totalmente seco, com cara de abandonado. Aha! Não podia ser tudo assim tão cuidadinho, sem nenhuma coisa fora do lugar. Que nada. Este laguinho fica vazio de propósito, para represar água da chuva forte que pode cair de repente. Para evitar que a enxurrada estrague o jardim, claro.

Como todo jardim, principalmente os grandes, temos diversos habitantes morando nele. Muitos pássaros, mas nada parecido com a diversidade da Mata Atlântica. Tantas abelhas de vários tipos e tamanhos, que tomei uma ferroada que deixou meu braço vermelho e irritado por vários dias. 
Quando ainda não sabíamos que tinha uma tela na janela para proteger nossa residenza dos insetos, entrou uma abelha no quarto. Foi uma aventura, pois a Lilian disse que não dormiria enquanto não visse o cadáver da bichinha.

Para aumentar a dramaticidade, o zumbido da abelhinha virou "helicóptero" para Indiana Lilian. Depois de algumas toalhadas, finalmente conseguimos o cadáver. Levamos para o nosso agrônomo de Piracicaba avaliar o potencial destrutivo daquela besta selvagem. Ele deu muita risada e reduziu muito a intensidade do risco que tínhamos corrido.

Simpáticas mesmo são as taruíras. Não sei o nome científico, mas essas lagartixas não são muito dadas a contatos com humanos. Ficam só no jardim e desaparecem com qualquer chuvinha. Correm desesperadas quando vamos passando pelos caminhos e escadas do jardim e foi muito difícil tirar foto de uma delas para registrar neste blog. Diferentemente das taruíras de Fernando de Noronha, não querem saber de visitas a qualquer espaço interior. E são muitas, mas muitas mesmo. Acho que depois das abelhas, devem ser o animal visível mais comum do jardim.

As aranhas, invisíveis, são excelentes na arte de construir teias cruzando de um lado a outro as trilhas. Todo dia passamos destruindo algumas, que no dia seguinte estão lá de novo,
persistentes.

A diversidade arborífica também não é muito grande, afinal trata-se de um jardim. Não é floresta, nem mata e nem bosque. Tem muitos ciprestes, todos muito bem aparados, e umas outras árvores bem grandes mais perto da Villa, pelo visto bem antigas. Algumas pequenas árvores frutíferas, que produzem algo comestível só pelos pássaros, completam a flora de maior porte.

E tem as estátuas espalhadas por diversos cantos do jardim. Todas com jeito de serem muito antigas, e que completam o cenário. Junto com uns pequenos pilares ao longo dos caminhos, que não devem ter menos do que 300 anos. Por baixo.

Em alguns recantos, têm umas grutas e pequenas cavernas. Algumas escavadas na pedra e outras foram feitas, pedra por pedra, encaixadas de uma maneira que não dá pra entender como não caem na nossa cabeça. Algumas dessas grutas devem ter sido caminhos usados quando não existiam as escadas que existem hoje para se passar de um nível para outro do jardim. Essa estrutura de níveis é suportada por arcos feito em pedras. Uns mais antigos e outros mais recentes, do século XIX.

Como estamos num morro, qualquer caminhada, ainda que divertida, é sempre um sobe ou desce. Este passeio na vertical tem a vantagem de  nos ajuda a queimar um pouco das muitas calorias que vamos adquirindo com tanta comida e vinho (da melhor qualidade, diga-se) que nos servem aqui.

Uma das grutas é um túnel para se chegar até as ruínas do topo do morro. Deve ter quase uns 100 metros e, em curva, quando se entra nela, fica tudo um breu. Mas para ver a jardinada e bem preservada ruína que se encontra do outro lado, vale muito a pena. Sem falar da vista, pois é o ponto mais alto da propriedade.

Tem muitas pequenas ruínas espalhadas por vários lugares, geralmente próximas das beiras do penhasco, que devem ser resquícios do tempo que este lugar era uma fortificação para proteger a lombardia dos invasores bárbaros que vinham do norte.


Uma pequena capela quase escondida, provavelmente um capricho da Principessa, fica num dos extremos da propriedade. Construída como uma cópia miniatura de alguma igreja importante, sempre têm flores novinhas no seu altar.

Deve estar incluído no contrato deixado por ela.


terça-feira, 22 de julho de 2014

I residenti

Hoje fiz a minha apresentação. Comecei com um clássico: filminho de Autazes. No final foi bem legal, todo mundo discutindo os correspondentes, querendo saber mais detalhes e tal. Já estava acostumado com a maioria das perguntas, depois de tantas apresentações pelo mundo afora.

Queria falar um pouco de quem encontrei aqui. Com tanta social obrigatória de frente pro lago, em três semanas deu pra enturmar.

Aqui no Bellagio Center tem uma lógica que eu não esperava. Antes de vir para cá, imaginava que iria ficar com o mesmo grupo pelas quatro semanas, mas não. Mesmo entre os que ficam quatro semanas, que são poucos, as datas de entrada e saída em geral não coincidem. Isso acaba sendo bom porque temos contato com mais gente e não dá tempo de ficar com o saco cheio de ninguém. Considerando que tem os de 3 semanas, os de 2 semanas e os de uma semana, dá uma bela rotatividade. Sem contar os que vêm por poucos dias, apenas para alguma conferência "lá em baixo", no Sfondrata, e que têm o privilégio de vir jantar conosco, os residentes, por uma única vez. Não tem quem não fique com inveja dos residentes.
Primeiro, os brasileiros. Conhecemos o Luiz, da Esalq, uma figura. Extremamente boa praça e daqueles que dá pra ficar amigo íntimo em no máximo em 5 minutos. Tem um trabalho bem interessante sobre transportar o modelo agrícola brasileiro para a África. Foi convidado para aplicar, e não como eu, que apliquei para ser convidado. O escritório dele era na torre de mais de 1000 anos! A esposa, Sandra, ficou amiga da Lilian. A filha, que veio visitar, é nossa vizinha em Higienópolis. Rômulo, quem está fazendo trabalho ao meu tema, estudando re os programas de proteção social brasileiros, como bolsa família. É boa praça. A esposa, médica da UFMG, é bem simpática. Chegaram depois de nós e vão embora antes.

O Bob, assessor de planejamento estratégico do Ban Ki Moon, além de muito simpático foi o mais "poderoso" que passou por aqui neste meu período. Ficou só uma semana, porque o chefe não deu folga. De vez em quando tinha que sair da mesa para atender "o chefe". Tem um projeto muito interessante, "Building Global Public Goods", mas de difícil implementação, talvez impossível no meu horizonte de vida. O mais legal foi a conversa que tivemos, eu falando sobre correspondentes, porque sabia que ele não iria ficar até o dia da minha apresentação, e ele anotando tudo que eu falava. Tô esperando ser convidado para apresentar o filme de Autazes na assembléia geral da ONU.

Thomas, o Doc, médico que foi responsável pela implantação de um programa de saúde pública em NY, travou uma luta complicada com a indústria de fast-food para reduzir o tamanho de refrigerante e hambúrguer na cidade. Sempre com uma fala mansa, mas firme. Foi também secretário de saúde pública em New Orleans e contou várias histórias do Katrina. Não dá pra não admirar um cara desses.

Mahnaz, uma senhora iraniana militante de movimentos feministas, e que teve que sair do Irã em 1979, logo após a revolução. Veio escrever uma autobiografia e tem uma história bem dura pra contar.

Sadik, artista plástico iraquiano radicado na Holanda (Luiz brincava do risco que tínhamos de um conflito Irã-Iraque na mesa), no começo era meio fechado, mas depois virou o palhaço da turma, sempre tirando uma. Tem um trabalho muito bonito e triste ao mesmo tempo

Naresh Fernandes. Dá pra acreditar num indiano que come carne e é católico? E note o sobrenome. Falante e simpático. Ninguém consegue ficar fora da conversa com ele por perto. Jornalista do National Geografic na Índia, conhece bem música brasileira.

Eddy, economista especialista em assuntos do Vietnã, casado com uma de lá, e membro de um comitê de especialistas sobre o país, nomeado pelo Obama. Menino prodígio, é o caçula da turma (40 anos) e, como tal, às vezes merecia um croque na cabeça. Envolvido em pesquisas randomizadas e um crente nas explicações derivadas de números.

Mark, nosso vizinho de porta, veio com o companheiro, que desde o começo foi mais simpático. Achamos que era esnobismo, mas depois deu pra perceber que era timidez. Tem um trabalho interessante sobre as mazelas que as ONGs estão aprontando no Haiti depois do terremoto.

Roy, ficou só uma semana no nosso período. Trabalha na Gates Foundation e estuda ONGs que recebem grana de doadores como o patrão dele. Toca um pouco de violão e piano e a esposa é dançarina de ballet clássico, uma negra alta e que chamava a atenção toda vez que aparecia. Por causa dele me animei a tocar meus clássicos numa dessas nossas sociais.

David, professor da New School de NY. Curioso, sempre perguntando, e com um projeto sobre design de hotéis, com foco no trabalho invisível das arrumadeiras. Conversou muito com o Henrique, no jantar que ele participou.

Rae, poetiza ganhadora do Pulitzer. Nas três primeiras semanas me dava muito melhor com o marido dela. Vão embora amanhã e, na nostalgia da saída, tivemos um ótimo papo hoje, até um pouco antes de escurecer.

Sandy, um velhinho simpático que ficou poucos dias por um motivo insólito. Caiu quando foi fechar a janela por causa da chuva e quebrou a perna. Teve que voltar de avião fretado para os EUA.

E tinha os que não deu pra conhecer bem. Bernadette, artista sul-africana que só aparecia de vez em quando. Gauri, artista Indiana, que também não cruzamos muito. Kevin, ex-primeiro ministro da Austrália, e Pat, jornalista de NY, que foram embora no dia em que chegamos. Os que ficaram mais tempo com eles contaram que eram figuraças.

E o staff daqui também merece referências. Pilar, a chefe. Ontem fez um tour conosco pela Villa (a meu pedido, diga-se) para explicar cada uma das obras da casa. As mais recentes são do século XVIII. Quadros, tapeçarias, mobiliário, tudo ficou muito mais interessante conhecendo a história. A Villa é mesmo um museu.

E os garçons, cada um mais figura que o outro. Vittorio ficou amigo desde criancinha porque a Luísa ficou hospedada no albergo que ele mantém na casa dele. Francesco, fanático por futebol, torcedor da Internazionale. Paolo, Albino, Ermano, todos muito atenciosos. Vai ser difícil voltar pra casa e ter que servir o próprio vinho. Sem falar em ter que arrumar a própria cama.



Nesta semana está saindo um monte de gente e não vai chegar mais ninguém, por causa das férias de agosto. Nos nossos últimos dias vamos ficar praticamente donos do lugar. Mas ainda temos dez dias e vamos aproveitar.



Até o último segundo.