segunda-feira, 7 de julho de 2014

La Villa

A Villa Serbelloni é impressionante, tanto pela cultura e história, como pela beleza. Como já comentei, não posso, por contrato, publicar fotos da Villa em si. Quando voltar mostro o livro que ganhei contando mais detalhes ilustrados desta história que segue abaixo. Quem se interessar por história, vai gostar. Outros podem apreciar fotos não comprometedoras que a Lilian fez dos jardins.

Por ficar situada num local estratégico, o tal promontório que é o encontro das pernas do Y invertido que falei no post anterior, começou a ser ocupado há muito, muito tempo. Dizem que há registros de ocupação pré-histórica, mas sabe-se que a primeira construção do local data do século II a.c.
O nome da cidade, Bellagio, vem do latim romano Bilacus, lago duplo, pelo seu formato, e a Villa desde sempre foi o centro da vida na região, desde que os romanos ocuparam este pedaço de terra e Julio Cesar, em 49 a.c. decretou todos daqui como romanos.




Plinio, o Jovem, imperador romano nascido na região em 62 d.c., já mencionava a existência de um edifício no alto do morro, e desde o século XVI historiadores diversos procuram por resquícios deste edifício. Há vários indícios da ocupação romana neste morro, inclusive um "altar de Júpiter" que fica na entrada da casa principal. (No pictures, sorry)
Na idade média, os lombardos tomaram a região dos romanos decadentes e a vitória se consolidou com a tomada da fortaleza existente no lugar, sempre no alto do morro. Sinais desta fortaleza ainda existem aqui e ali, em escavações na rocha e ruínas pela propriedade. Restos de algumas igrejas construídas nos séculos seguintes também deixaram suas marcas em ruínas de pedras que ainda persistem. Uma das torres de uma igreja permaneceu, e serve hoje de escritório para alguns dos residentes. Nosso conterrâneo de Piracicaba, tem seu escritório nesta torre durante este mês.

Frederico Barbarossa, germânico, ocupou o lugar depois de várias guerras, antes de se ser coroado Imperador de Roma. Uns 200 anos depois, os Visconti di Milano, retomaram a região e construíram um castelo no lugar onde existia a antiga fortaleza. Depois de servir de abrigo para piratas, o castelo também foi demolido.

No tempo dos Sforza, que dominaram Milano após os Visconti, e a propriedade foi passando de mão em mão entre várias famílias, sendo vendida ora para pagar dívidas, ora como passagem de poder. Há várias menções às diversas construções que se seguiram no local, dependendo de quem o possuía. Pedaços de toda esta história continuam por aqui, espalhados pela propriedade onde é hoje o Bellagio Center. Há diversos documentos que indicam que o terreno da propriedade se manteve mais ou menos o mesmo desde então. Um tal Antonio Maranese construiu um outro edifício um pouco mais abaixo no morro, que foi sendo reformado ao longo dos anos e hoje é onde fica a minha residenza, de onde escrevo agora e que ainda se chama Maranese (foto acima). Mais ou menos por esta época, se hospedou por aqui um tal de Leonardo da Vinci.


Pulando alguns séculos, Alessandro Serbeloni, que havia herdado a propriedade, construiu em 1803 a casa que hoje frequentamos e onde almoçamos e jantamos todo dia e que dá o nome à Villa. A casa em si se parece mais com um museu, tantas as obras de artes e relíquias as mais variadas, de pinturas a tapeçarias, de móveis a pequenos objetos de diversos lugares do mundo. Dá pra entender porque não podemos fotografar nada. O valor de tudo que tem aqui é incalculável.

Depois da Revolução Francesa e de Napoleão, alguns outros visitantes ilustres como Flaubert e Sthendal passaram algum tempo na propriedade e descreveram em suas obras a beleza do lugar. A rainha Vitória também passou por aqui em uma de suas viagens.


No final do século XIX, a Villa virou um hotel, que foi vendido em 1929 para a tal Principessa Ella Walker, que na verdade era uma milionária de Detroit. Foi esta senhora que manteve o lugar como está hoje, fechando o hotel e transformando a Villa numa propriedade particular fechada a visitantes.

Tendo sido casada três vezes com um conde, um duque e por último com um príncipe, ela manteve o título de princesa mesmo na viuvez, graças a um decreto especial de Vitorio Emanuelle III, o último rei da Itália. Há algumas pinturas com retratos da principessa e até fotografias dela, já mais velha. Algumas das salas que ocupamos para reuniões viraram bibliotecas e ainda são chamadas de "escritório da principessa" (onde vou assistir a semifinal contra a Alemanha) e "dormitório da principessa" (onde apresentamos nossos trabalhos aos colegas que estão aqui).


Durante a II Guerra, a Luftwaffe ocupou este lugar estratégico e a principessa foi para a Suíça, onde poderia ficar protegida. Quase ao final da Guerra, Mussollini fugiu para a região protegido por soldados da SS emprestados por Hitler, e foi enforcado em Menaggio, do outro lado do lago, a 15 minutos daqui. Vários milionários italianos que apoiavam Mussollini fugiram para cá com tudo que podiam carregar, a caminho da Suíça, onde preservaram seus valores. Os alemães também fizeram uma limpeza na Villa, quando saíram da propriedade, carregando caminhões com obras de arte. Algumas foram recuperadas, principalmente a mobília, graças à intervenção de uma governanta junto a autoridades italianas. Esta governanta, que ficara aqui na ausência da pincipessa, dizia-se grega, mas supõe-se que era uma princesa russa que fugiu depois de 1917.


Em 1959, pouco antes de morrer, a principessa conseguiu convencer a Fundação Rockfeller a adquirir a propriedade, que topou mesmo sem saber o que poderiam fazer com ela. Algum tempo depois transformaram o local num centro de conferências e de residência de estudiosos de todos os tipos, acadêmicos e não acadêmicos. Já presidente dos EUA, J. F. Kennedy também se hospedou aqui.

E é de onde escrevo este blog.







4 comentários:

  1. esse aí é um local muito apropriado para se pensar em distribuição de renda, mas, em larga escala...

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  2. Eduardo, eles vão precisar acrescentar à história da Villa que você e a Lilian estiveram aí, em Julho de 2014 :)

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  3. Nada está na mente que não tenha estado antes nos sentidos

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