
Depois de 10 dias aqui, dá pra dizer que temos uma rotina. Embora a cada dia a gente descubra uma coisa nova. Inclusive que a restrição a fotografias é uma exigência da seguradora das obras de arte. Como ninguém vai roubar o jardim, ficamos mais à vontade para fotografar. Aliás, o jardim merece um post específico.
Café da manhã sempre das 8 às 9hs. Almoço, às 13hs. Chá da tarde às 16hs. Apresentações dos residentes às 18h15. Coquetel e social às 19hs. Jantar às 19h30. Chá, café e digestivos, com mais social após o jantar. Nos intervalos da comilança e sociais, cada um se recolhe no seu estúdio para, afinal, justificar porque está aqui. Falando assim, parece muito chato, mas é nos detalhes que percebemos que dá pra se divertir.

Como cada um está trabalhando num projeto diferente, dificilmente teríamos o que conversar sobre o que estamos fazendo se ficássemos isolados, cada um na sua. As sociais são quase uma exigência para que saibamos mais quem é quem e porque cada um está aqui. As apresentações, que não são obrigatórias, também tem este objetivo. Na verdade, desde o início fomos induzidos a valorizar estas sociais do final do dia. Se é esse o preço a pagar, porque não? Além do mais, devagarinho descobrimos melhor uns aos outros, e o gelo vai sendo quebrado.

O café da manhã não é muito diferente de um hotel. Embora com atendimento mais personalizado dos garçons. Como brasileiros, gostamos de cumprimenta-los sempre em italiano, "bon giorno", "grazie", e com isso levamos uma vantagem sobre os "good mornings" e "thanks" dos gringos. Lógico que, como italianos, quase todos os garçons gostam de futebol, e foram muito solidários com a nossa dor. De um deles até ouvimos que a sorte da Alemanha é que a Itália saiu cedo, pois os alemães sempre perdem deles em copas. Não chequei as estatísticas, mas é bem provável.
É também no café da manhã que temos que comunicar nossos planos alimentícios para o resto do dia, pois a mesa, seja no café, no almoço ou no jantar, é posta sempre contando exato quem vai estar presente.

O almoço também não é um grande evento. Sempre leves, com salada, um prato principal, e sobremesa de frutas, acompanhados de vinho branco, sem exagero. Quem quer "almoçar fora", durante o café da manhã preenche uma folhinha com as opções de recheio de sanduíche, saladas, frutas e bebida. É o "bag lunch". Desde o início sabíamos dos "bag lunchs", mas não tínhamos dado muita atenção. Só fomos perceber que o número de pessoas no almoço tradicional ia ficando cada vez menor, e com as pessoas menos interessantes. É porque os outros, muito mais espertos, pegam suas sacolinhas verdes e vão comer pela propriedade, que é um enorme jardim! Ao adotar esta prática, passamos a conhecer o lugar muito melhor. Inclusive esta maravilhosa ruína da foto, provavelmente de mais de mil anos, com uma vista inacreditável bem lá no alto do morro. Quando comentei com um outro residente esta nossa "descoberta", ele disse que ia lá quase todo dia. Demoramos também para descobrir o chá da tarde. Mas convenhamos, é muita comida!

As apresentações ocorrem normalmente às terças, quartas e quintas, antes do coquetel. Excepcionalmente às sextas. Como não dá pra todo mundo e o pessoal é rápido, quando eu fui me inscrever, no segundo dia que estava aqui, fiquei para o dia 22, na próxima semana. Depois conto como foi.
O coquetel de antes do jantar é um aquecimento da conversa. Tem vários tipos de bebidas, alcoólicas ou não, mas os preferidos costumam ser os drinques preparados pelos garçons. Fiquei fã de um chamado spritz: aperol (um licor da cor de campari), prosecco, água com gás e meia fatia de laranja que dá o toque ao ser usada para misturar tudo no final. Ali começa a conversa, que vai parar na mesa de jantar. Esta social dura exatamente meia hora. No início achei muita burocracia esta precisão do horário, mas depois entendi que tem a ver com a rotina dos garçons, que checam o número de presentes e nos distraem enquanto preparam a mesa.
Já desinibidos, a conversa iniciada na apresentação ou no coquetel acaba definindo ao lado de quem vamos sentar na mesa do jantar. Novamente um prato leve, em geral uma massa fina (a Lilian depois vai contar mais detalhes do cardápio), salada e um doce de sobremesa. Acompanha vinho tinto ou branco, dependendo do prato e da temperatura da noite, que na verdade ainda é dia. Nestes dez dias não vi um único prato ser repetido, seja no almoço ou no jantar.

Após o jantar somos convidados para outro ambiente para tomarmos o café, chá ou algum outro digestivo. Eu fico sempre em uma dose de limonela. Se o tempo está bom, esta rotina acontece no terraço de cinema. Se está mais frio ou chuvoso, vamos para o salão de jogos, que também tem um piano e dois violões, além de vários jogos de tabuleiro. A Lilian fez sucesso ensinando o jogo africano mankala para o jornalista indiano e o artista plástico iraquiano/holandês. Um dos residentes, da Gates Foundation, arriscou o piano e o violão algumas vezes. Fiquei com vontade, mas não tive coragem.

Neste embalo, fechamos a noite quando começa escurecer, pouco antes das dez, na maior animação. Hoje, antes de cada um ir para a sua residenza, fizemos um tour pelos quartos dos residentes que estão hospedados na casa amarela, a que é chamada Villa. Não dá pra acreditar como os quartos e offices são sensacionais lá em cima. Muito mais pela vista do que pelo tamanho, já que o nosso é até maior que alguns. Rimos bastante e nós aqui de Maranese, a casa vermelha mais em baixo, fizemos muita piada com a nossa condição de "favelados". Mas ficamos com uma pontinha de inveja. Se é que é possível, já que dá pra ver pelas fotos que não estamos nada mal instalados.
Continua outro dia...
Para vc ter assunto com o garçom, já que aposto não tem tempo de perder com bobagem: Em Copas - 5 jogos, 3 vitórias da Itália (uma final e duas semifinais...) e 2 empates com 9 gols da Itália e 4 dos germânicos. No total - J: 32 / I: 15 / A: 7 / E: 10 / G I: 48 / G A: 36. O Deutsch Team não vence a Azzurra desde 1995 com 7 jogos no período....
ResponderExcluirVocês ficam com um pouco de inveja dos que estão melhor instalados? Ah, tá, quem sabe vocês podem imaginar o que é ler esse post em Curitiba, no Inverno...
ResponderExcluirBeijos para os dois favelados. Tou morrendo de pena de vocês...
Que rotina chatinha essa de vocês, hein!!!!????
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